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Escandinávia e Brasil

Entrevista: a visão da sueca Storytel sobre os audiolivros no Brasil

sexta-feira, 1 de novembro de 2019
Entrevista: a visão da sueca Storytel sobre os audiolivros no Brasil

A sueca Storytel, uma das maiores do mundo nos segmentos de audiolivros e podcasts, lançou sua operação no Brasil oficialmente no dia 11 de setembro. Os podcasts têm crescido em popularidade no país, onde os audiolivros ainda são um formato incipiente de consumo de informação, cultura e entretenimento. É possível encarar com otimismo um mercado notoriamente difícil para a indústria editorial?

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Na visão da Storytel, sim, é possível. Em entrevista exclusiva para o Scandinavian Way, André Palme, que comanda a operação brasileira, fala sobre as oportunidades que a companhia enxerga no país e como ela quer ajudar a disseminar cultura e informação para o público local. "Boas histórias são sempre boas histórias, independentemente do formato em que elas são disponibilizadas", afirma.

Palme é um dos nomes confirmados na programação do Scandinavian Day, quer será realizado na próxima quarta-feira (6/11), em São Paulo. A seguir, a entrevista:

SCANDINAVIAN WAY: Você é um conhecido especialista do mercado editorial, mas agora está em uma função nova, a de country manager de uma empresa especializada em audiolivros. O que você aprendeu sobre o mercado editorial brasileiro nesse início de operação da Storytel no país que acabou sendo uma novidade para você?
André Palme
: Algumas coisas não mudam, e boas histórias são sempre boas histórias, independentemente do formato em que elas são disponibilizadas. Acredito que os maiores aprendizados iniciais foram realmente relativos ao áudio tecnicamente e seu formato de storytelling. Isso se mostrou um instigante desafio, já que tanto a produção quanto a disponibilização do áudio são campos novos para mim. O trabalho incluiu desde a compra de equipamentos e a montagem dos estúdios até a produção dos conteúdos e como, dentro do áudio, eles podem ser mais bem produzidos e publicados. Ao mesmo tempo, é muito interessante perceber o quanto o áudio é algo natural para nós, há muitos anos. Começamos contando histórias na fogueira, e é interessante a conexão quase que automática que temos com a voz desde sempre.

SW: É voz corrente que os brasileiros leem pouco. Isso é mesmo verdade? E o que explica esse fenômeno
AP
: Quando falamos de livros impressos, é um fato que aqui no Brasil não se lê tanto quanto em outros países. Hoje, estamos rodeados de outras opções de entretenimento e informação, como o streaming, que tem, cada vez mais, capturado a nossa atenção. Mas nós gostamos de consumir histórias sejam elas via TV, áudio ou outros formatos. Então, grande parte de pessoas está propensa também a ouvir boas histórias - e, ao ouvi-las, também querer consumi-las em outro formato. Um levantamento que fizemos recentemente, com dados do TGI/IBOPE, destaca a  propensão e interesse em ouvir conteúdos em áudio no Brasil e mostra que cerca de 11% da população consome ou está propensa a consumir conteúdos em áudio. Além disso, cerca de 60% das pessoas que consomem videos-on-demand estão dispostas a consumir conteúdo de áudio entretenimento, assim como pessoas que costumam baixar séries de TV,  filmes e jogos (12,3%, 19,07% e 20,6%, respectivamente). Mas é sempre importante frisar que o áudio não vem como um formato competidor, e sim complementar o outros formatos.

SW: Qual o perfil de quem consome audiolivros no Brasil?
AP
: Esse mercado ainda está em expansão, então não há como definirmos perfis. De qualquer forma, sabemos que muitas pessoas que tendem a escutar histórias e conteúdos em áudio, não somente audiobooks, gostam de consumir quando se deslocam para o trabalho, por exemplo, entre outros momentos que podemos chamar de “in between”. Muitas pessoas também costumam relatar que escutam histórias em áudio enquanto realizam rotinas do dia a dia, como cozinhar, lavar louça, arrumar a casa ou até para relaxar de um dia corrido. Quando falamos de audiobooks, especialmente, vemos que, em outros países em que atuamos, os conteúdos mais ouvidos são os de backlist, ou seja, histórias muitas vezes já conhecidas ou lançadas em outros formatos, que o consumidor tem a oportunidade de conhecer neste novo formato. 

SW: Qual a grande meta da Storytel para o Brasil e em quanto tempo a empresa pretende atingi-la?
AP
: Por política interna, não falamos sobre metas locais. No entanto, podemos dizer que estamos muito otimistas com o potencial de crescimento que teremos aqui no Brasil, visto que o público brasileiro já é maduro no consumo de streaming. Os conteúdos em áudio concorrem com o tempo livre, e nesse sentido concorremos com qualquer plataforma que oferece produtos e serviços, como séries em TV, música e outras opções de lazer. Conteúdos em áudio como os que estamos produzindo aqui são ótimas alternativas para muitos momentos e, como já falei, muito fáceis de inserir na rotina de qualquer pessoa.

SW: O mercado de audiolivros no Brasil ainda é incipiente, mas o de podcasts, outra das frentes de atuação da Storytel, tem crescido de maneira acelerada. Podcasts serão o carro-chefe no Brasil, os audiolivros é que vão estar na linha de frente ou essa divisão na verdade não existe?
AP
: Nosso catálogo é bastante diversificado em relação aos gêneros e formatos que se adaptam para áudio.  Teremos bastante conteúdo em podcast, desde os já existentes no mercado até podcasts exclusivos, mas não privilegiaremos este formato em detrimento de outros. É um mercado que tem crescido vertiginosamente. Segundo a Associação Brasileira de Podcasts, temos hoje no Brasil cerca de 2000 programas ativos do gênero.  Assim, é natural que tenhamos bons conteúdos em podcasts, além de investir em produções oportunas. Mas, de novo, somos uma plataforma que oferece diferentes histórias para ouvir, em todos os formatos possíveis, com exceção da música. Nosso conceito é o de one-stop-shop.

SW: Em 2016, a Storytel assumiu o controle da tradicionalíssima editora sueca Norstedts, o que acabou se transformando em um marco não apenas da trajetória da Storytel, mas da própria indústria editorial da Suécia. Mais recentemente, em setembro, a empresa também anunciou da compra da editora finlandesa Gummerus Kustannus Oy, uma das maiores do país. Essa estratégia de aquisição de também faz parte dos planos para o mercado brasileiro?
AP
: Por enquanto, não há planos nesse sentido aqui no Brasil.

(Foto: Gui Ruiz)

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