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Meio Ambiente e Sustentabilidade

Na Suécia, a "vergonha de voar" já afeta a indústria da aviação

segunda-feira, 17 de junho de 2019
Na Suécia, a "vergonha de voar" já afeta a indústria da aviação

Os aviões lançam na atmosfera grandes volumes de poluentes, o que, em nome da preservação do planeta, tem feito muita gente deixar de voar. E em nenhum país esse dilema tem sido levado tão a sério quanto a Suécia, que até já criou uma expressão para se referir à questão: trata-se da "flygskam", ou "vergonha de voar", um fenômeno que já tem impactos reais sobre a indústria da aviação.

Um dos primeiros suecos a impulsionar o movimento contra viagens de avião foi o medalhista olímpico dos Jogos de Inverno em Vancouver (2010) Bjorn Ferry. Ele é conhecido por viajar centenas de quilômetros de trem para participar de eventos esportivos e por se recusar a voar devido às mudanças climáticas.

A ideia ganhou mais adeptos quando Malena Ernman, uma das mais famosas cantoras de ópera da Suécia, declarou publicamente a intenção de jamais voar novamente. A decisão afetou significativamente seus compromissos artísticos, mas outras celebridades apoiaram a cantora e aderiram ao movimento.

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Malena é mãe de Greta Thunberg, uma ativista adolescente que ficou conhecida ao fazer um giro pela Europa de trem em uma campanha em defesa do clima. Ela se nega a voar e foi de trem ao Fórum Econômico Mundial em Davos - enquanto mais de mil delegados chegaram ao evento em aviões privados.

À medida que o movimento ganha corpo, outros termos têm se popularizado. Os suecos já falam de "tagskryt", ou o "orgulho de andar de trem". Acompanhada de uma hashtag, "tagskryt" tem sido usada nas redes sociais por aqueles que viajam de trem e querem incentivar outras pessoas a fazer o mesmo. Existe ainda um novo termo para os que voam, mas preferem esconder isso: "smygflyga", ou "voar em segredo".

A emissão de dióxido de carbono (CO2) por quilômetro de um trem é de 14 gramas por passageiro, em comparação com os 285 gramas emitidos em uma viagem de avião. Os cálculos são da Agência Ambiental Europeia (EEA, na sigla em inglês), que considera um trem com 150 passageiros e um avião com 88. Para aviões de maior porte, o nível de emissão pode chegar a 170 gramas por quilômetro por passageiro, de acordo com um estudo da universidade britânica London School of Economics.

Um dos maiores problemas da aviação é que, além da emissão de CO2, há liberação de vapor de água e óxido nitroso (N2O), gás nocivo e que causa efeito estufa. Essas emissões em altitudes elevadas na atmosfera têm impacto maior em virtude de uma série de reações químicas.

Não se sabe exatamente quantas pessoas aderiram ao movimento "flygskam". Mas a página no Facebook "Tagsemester" (férias de trem), criada pela ambientalista Susanna Elfors para dar conselhos sobre meios alternativos de transporte, já tem mais de 90 mil membros. Uma conta anônima no Instagram, com mais de 60 mil seguidores, expõe publicamente figuras conhecidas que voam. E a hashtag #StayOnTheGround, algo como "fique no chão", entrou para os trending topics no Twitter.

O movimento tem um impacto importante na Suécia, onde o uso de trens só faz crescer e o de aviões, diminuir. Rickard Gustafson, chefe da companhia aérea sueca SAS, disse a um jornal norueguês estar convencido de que o movimento "flygskam" estava por trás da queda de 5% no tráfego aéreo da Suécia no primeiro trimestre de 2019. Por sua vez, a companhia ferroviária sueca SJ anunciou um número recorde de passageiros devido ao que descreve como "a preferência em viajar de forma inteligente pelo clima".

Incêndios e onda de calor
Alguns analistas argumentam que a queda no número de voos na Suécia deve-se também ao impacto da onda de calor no verão de 2018, que gerou mais consciência na população sobre as mudanças climáticas. Em Estocolmo, onde a temperatura é registrada mensalmente desde 1756, o mês de julho de 2018 foi considerado o mais quente da história. No restante da Suécia, a onda de calor provocou incêndios florestais que se estenderam até o círculo ártico.

O movimento "flygskam" gera preocupação na indústria da aviação e foi um dos temas de um encontro de três dias realizado neste mês na Coreia do Sul. "Se não oferecermos uma resposta, esse sentimento vai crescer e se espalhar", disse Alexandre de Juniac, presidente da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês), segundo a agência Reuters.

Estima-se que os voos comerciais respondam por aproximadamente 2,5% das emissões globais de carbono, e a expectativa é que essa porcentagem aumente consideravelmente devido à expansão de aeroportos e dos voos baratos. A indústria da aviação anunciou planos para desenvolver motores menos poluentes e baixar as emissões. A meta é que, em 2050, o volume de emissões de poluentes seja metade do registrado em 2002.