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Sociedade

Há 30 anos, Dinamarca tornou-se o primeiro país a reconhecer a união civil homoafetiva

segunda-feira, 10 de junho de 2019
Há 30 anos, Dinamarca tornou-se o primeiro país a reconhecer a união civil homoafetiva

Em 7 de junho de 1989, um documento assinado pela rainha Margrethe II chancelava, "com a mão e o selo reais", uma lei pioneira aprovada pelos parlamentares dinamarqueses: a partir daquele momento, o país escandinavo passaria a ser o primeiro do mundo a reconhecer oficialmente a união estável civil entre casais homoafetivos.

"Duas pessoas do mesmo sexo podem ter sua união estável registrada", garante o primeiro artigo do ato legislativo. Apesar de devidamente aprovada pelos parlamentares e rubricada pela rainha, a lei só entraria em vigor alguns meses depois, em 1º de outubro de 1989 – o tempo foi necessário para que os órgãos públicos adaptassem seus procedimentos internos, como relembra a BBC.

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O primeiro casal a ser contemplado com o direito civil histórico já vivia junto havia quatro décadas e era bastante conhecido entre aqueles que lutavam pelos direitos da comunidade LGBT: os ativistas Axel Lundahl-Madsen e Eigil Eskildsen (os dois de óculos na imagem acima) - que já haviam adotado o sobrenome Axgil, inventado a partir da junção de seus nomes.

Tom Ahlberg, o prefeito de Copenhague, abriu o evento com um pronunciamento que reconhecia a importância da data. Em seguida, realizou a cerimônia. Foi ele que perguntou a Axel Axgil se aceitaria Eigil Axgil como companheiro – e vice-versa. E, claro, ouviu duas vezes um "sim". Até o fim daquele ano, 270 homossexuais homens e 70 mulheres registraram suas uniões civis na Dinamarca.

"Nunca poderíamos nem sequer imaginar que chegaríamos tão longe", disseram eles, logo após a cerimônia. "Mantenham as mentes abertas. Venham e continuem lutando. É a única maneira de mudar as coisas. Se as pessoas saírem do armário, este tipo de legalização vai ocorrer em todos os lugares."

Inspirado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas em dezembro de 1948, Axel engajou-se para criar uma organização de defesa e reinvindicação de direitos para gays, lésbicas e bissexuais. Nasceu assim a Kredsen af 1948 ("Círculo de 1948"). No ano seguinte, o grupo foi rebatizado como Forbundet af 1948 ("Associação de 1948", ou simplesmente F-48 - em 1951 já congregava 1339 membros, na Dinamarca, na Noruega e na Suécia.

O ativista Axel conheceu Eigil em um encontro do grupo ativista em 1949 - e eles nunca mais se separaram. A dupla criou um jornal com conteúdo destinado à comunidade gay, o Vennen ("Amigo", em português). Também criaram uma agência de modelos e uma empresa de fotografia, ambos especializados na temática homossexual.

Eles acabaram presos em 1955 por causa da publicação de fotos de homens nus. Segundo declararam autoridades dinamarquesas da época, o material, "embora não obsceno, poderia ser considerado especulação comercial com intenções sensuais".

O casal Axgil refez a vida criando uma pequena pousada no norte da Dinamarca, preocupada principalmente em atender com respeito e dignidade o público LGBT. Eles nunca deixaram de se envolver no ativismo. Não à toa, foram os protagonistas da união civil homossexual número um, em 1 de outubro de 1989, em cerimônia acompanhada por uma multidão de ativistas e simpatizantes que se aglomerou ao redor da prefeitura de Copenhague, onde o ato foi firmado.

Eigil morreu em setembro de 1995, aos 73 anos. Axel ainda seguiria uma voz influente entre os ativistas LGBT até sua morte, em outubro de 2011, aos 96 anos. Em 2013, foi aclamado postumamente pela organização Equality Forum como um dos 31 ícones mundiais LGBT.