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Sociedade

Campeã em liberdade de imprensa, Finlândia agora pune quem ameaça jornalistas na internet

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
Campeã em liberdade de imprensa, Finlândia agora pune quem ameaça jornalistas na internet

A Finlândia está acostumada a liderar os rankings internacionais de liberdade de imprensa, mas mesmo essa posição invejável não tem livrado os jornalistas do país de uma ameaça crescente: o assédio que os profissionais sofrem na internet, em particular nas redes sociais. A impunidade vinha sendo a regra - mas isso começou a mudar.

Em 2018, os tribunais finlandeses começaram a condenar cidadãos envolvidos em ataques e intimidações on-line contra jornalistas, seja em ataques isolados, seja em campanhas coordenadas, de acordo com o International Press Institute (IPI), uma rede global de editores, repórteres e executivos de comunicação. Alguns especialistas, diz a entidade, acreditam que as decisões estabelecem um novo precedente no país e poderiam ser um exemplo para o resto da Europa - e quem sabe, para o restante do planeta.

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Uma das decisões mais recentes ocorreu em outubro, quando um tribunal regional finlandês condenou por difamação e incitamento à difamação três pessoas envolvidas em uma campanha de assédio on-line contra a jornalista Jessikka Aro. A decisão considerou ainda o agravante de anos de intimidação, ocorrida em vários canais. A jornalista, que trabalha na emissora pública YLE, é conhecida por suas reportagens sobre trolls russos, que ela começou a investigar em 2014.

A decisão foi elogiada pela comunidade jornalística finlandesa. "O tribunal julgou que o assédio sistemático a um jornalista e a incitação de outros a fazê-lo pode ser comparado ao abuso físico", disse ao IPI Arno Ahosniemi, editor-chefe do jornal de negócios finlandês Kauppalehti e presidente do Sindicato dos Editores Finlandeses.

A Justiça condenou Johan Bäckman, um estudante finlandês que mora na Rússia, por difamação e incitação à difamação - sua sentença ainda não foi decidida. Segundo o tribunal, Bäckman assediou a repórter com ações como escrever posts em redes sociais para ridicularizar a profissional ao longo de 16 meses. Além disso, mais duas pessoas - uma, fundadora e ex-controladora de sites da dita "imprensa alternativa" da Finlândia, a outra, sua sucessora nos negócios - foram condenadas a um ano e dez meses de prisão por difamação agravada. O trio também terá que pagar indenizações à jornalista que somam o equivalente a R$ 370 mil.

O editor Arno Ahosniemi acredita que as condenações são um marco importante na proteção da liberdade de expressão na Finlândia. No início do ano passado, o Sindicato dos Editores Finlandeses pediu que os congressistas do país revisassem as leis anti-assédio para melhor enfrentar a intimidação contínua de jornalistas. “Se o assédio à imprensa virar uma coisa comum, os jornalistas não vão querer abordar certos assuntos. E é exatamente isso o que esses criminosos querem”, afirmou.

"Os jornalistas estão sempre sujeitos a críticas", disse Martina Kronström, advogada de Jessikka Aro. “Mas a decisão pode ajudar a traçar uma linha na qual a crítica se transforma em perseguição.”

Outro marco importante já havia sido registrado no início de 2018, quando um tribunal regional condenou dois homens por terem difamado a jornalista Linda Pelkonen. Os homens enviaram mensagens ofensivas à profissional e sugeriram que ela deveria ser estuprada. No mês passado, um tribunal de apelação encontrou um terceiro homem culpado pelas ameaças. A campanha de assédio foi desencadeada por um artigo em que Linda Pelkonen questionou a decisão da polícia de revelar a etnia de um suspeito em um caso de estupro.

A liberdade de imprensa é motivo de orgulho para os finlandeses. No ano passado, o jornal Helsingin Sanomat espalhou outdoors por Helsique com a mensagem "sr. presidente, bem-vindo à terra da imprensa livre" (foto). A campanha chegou às ruas durante a passagem pela cidade dos presidentes americano, Donald Trump, e russo Vladimir Putin, que realizaram um encontro de cúpula na capital finlandesa.